Sunday, 16 November 2008

Eu, barriga, marido e mãe

São sete horas da manhã. Pausa para acordar e regressar ao banheiro. A vontade é tanta que em instantes já estou pronta para dormir novamente. Só não despenco no sono ainda em pé porque o barrigão requer cuidados no aconchegar da cama. E como de costume dessas noites com barriga, me aproximo lentamente do pai para sanar o breve abandono e tomar meu espaço.O ritual do banheiro alcançou uma freqüência recorde. Me pergunto se não é uma espécie de ensaio para quando ele nascer e ditar as novas regras do sono.
Ainda na cama, marido se aproxima mais um pouco e toca com as costas de uma das mãos no barrigão, e num gesto minúsculo com os dedos acaricia o filho me enchendo de satisfação.
São nove horas agora, e no meio do trajeto para as necessidades básicas toca o telefone celular.
Estou de licença maternidade, mas faz bem ao ego vez e outra atender o trabalho para ser útil aos que me rodeavam. Ainda bem que os seres humanos reconhecem que a preservação da espécie jamais sobreviveria sem a licença maternidade. Nos primeiros dias estranhei o tempo passar sem relógio, mas quando a azia da gravidez e a pressão na bexiga iniciavam seus ciclos, apreciava cada minuto de sossego.
Hoje é um dos dias da licença que não arriscarei nada na cozinha. Venho me dedicando a ela quando posso. Não sou muito criativa, embora seja esforçada, segundo meu maridinho.
Morar junto era um sonho antigo, quase que uma obsessão. Contudo, venho percebendo que tratava-se de um impulso instintivo, ou seja, todos queremos ser dono do canto, do seu canto e quando somos, nos sentimos realizados.
Confesso que não enxergava o ninho de minha mãe com todas as suas palhas. Hoje aprecio cada palhinha, todos os arregos de mãe, de casa de mãe, sabe?! Roupa lavada, geladeira cheia com coisinha que gostamos, cheirinho de mãe no ar... E falando em mãe, ela trouxe morangos ontem a noite e eu os misturei com creme de leite porque sei que o marido gosta. Ofereci café para minha mãe, porque também sei que ela aprecia. Agradamos quem amamos. Nescafé é fácil de fazer. Durante a gravidez quase não bebi café, me enjoa o aroma.
Lá estávamos nós duas. Meu bebê na barriga e minha mãe a frente. Naquele momento senti falta de quando eu estava na barriga dela, saudades de um tempo que nem me lembro, embora eu sinta o cordão que me liga a ela eternamente.
Desde que a gravidez oscila meus hormônios e me provoca choro e riso, algo mudou. Estou enorme. Gigantemente mãe, como a minha, para sempre. Jamais tive tanto medo de encarar as fases da vida que estão por vir. Quero ficar velhinha para acompanhar a vida de meu filho. A velhice faz mais sentido agora, parece ser mais prazerosa. Ver crescer a satisfação da felicidade de um filho.
Almoçamos fora; eu, marido e o barrigão, é claro; num restaurante a quilo aqui perto. Estamos contando os dias para o nascimento de Isaac, apesar de já ter nascido há tempos dentro de nós. Já existe. Todos os nossos planos o incluem. Ele tem quarto com objetos que já são dele. Roupas com o nome gravado. Isaac já nasceu na história de todos que me conhecem.
Retornamos do almoço, o marido pegou o violão, eu me deitei com preguiça e sem culpa. Ele tocou I wish you were here, muito concentrado e eu lia Garcia Márquez, Viver para Contar. As olimpíadas na televisão, nestes poucos canais que pegam por aqui no apartamento que estamos. Marido se concentra impecavelmente nas notícias que envolve os esportes e eu o admiro por isso. Admiro homens com paixões. Ele conversa comigo mais um pouco, repousa toda atenção na minha barriga como faz todos antes de se despedir.
A porta se fecha, leio mais 30 páginas e durmo com Isaac aos soluços no meu ventre.
Desperto, escrevo sobre este dia simples, embora não comum. Agora são sete da noite, abre-se a porta, fico radiante em revê-lo.

Wednesday, 13 August 2008


Tô com o Rei na Barriga
Sentado feito um
Rei da minha Roma
Dono das minhas terras
Apertado no meu ventre
8 cm de fêmur
Pressiona minha bexiga
Cabeceia meu coração
Toma espaço
Mais espaço
Rei do meu tempo
Determina meu sono
Dá fome
Dá alegria
Dá medo
Rei
Bem vindo
Isaac meu filho

Tuesday, 5 August 2008


Ana Laura irradia
É morena branca
No céu estrela seria
Na terra eu sei que canta

Antonio é desenho
Artista quem o esculpiu
Requer algum empenho
No seu mundo riu

Irmãos juntinhos
No meio um pingüim
Parece geladinho
Mas é amor eterno enfim

Alvorada de Anna e Tiago


Eu disse:
- Teu latino jeito, brasileira esperta, dona das palmas. Vais encantar os além mares.
E agora questiono:
- Por que tão cedo? E as platéias do resto do mundo? Como ficarão aqueles carentes do teu palco? Cabe a nós perpetuar tua energia? Por que tão cedo?
Não admitimos surpresa partida, portanto és eternizada assim bela. Essa é a benção para os que vão cedo, permanecem intactos, como se o tempo fosse ingênuo demasiado para te perseguir. Cedo é a palavra que tanto nos incomoda.
Choramos por nós. Fazes falta. Da falta.
Aqui o tempo está alerta, por aí... duvido. Aqui só paramos para pensar nos porquês da vida quando o tempo resolve largar alguém que amamos e então nos forçar a pensar sobre ele.
Banalizamos a morte até que ela arranja um jeito de se aproximar. Será que devemos falar sobre isso?
Teu encanto me fez pensar em lógica e na morte. Desperdício para esse universo. Acidente? Não faz sentido tão cedo. Cedo é a palavra que tanto nos incomoda.
Qual a razão?
Para acalmar a alma e continuar a sobre viver sem desmoronar quando penso na injustiça dos segundos que fizeram diferença, acredito em ti numa viagem. Exatamente como um amigo disse:
- Vamos fingir que está tão bom por lá que ela ficou pra sempre.
Assim driblamos o tempo que insiste em demorar quando a hora é de dor.
Vamos dançar com você nas memórias para sempre. Pode parecer cruel hoje, contudo será transcender em breve.
Vocês que partem cedo demais, mesmo sem razão de ser, nos libertam dos dias banais, dias sem reflexão sobre o agora, os dias que passam sem cuidado com os vivos. A saudade que estraçalha o peito nos projeta enquanto seres humanos.
De alguma forma tua dança fica Pequenina.
De alguma forma tua força fica Grandão.
Grandão, cuida da Pequenina.
Tenho fé.

Tuesday, 24 June 2008

Tim Tim


Passarinho achado
Asa cortada
Dono abandonado
Não cantava

Mamãe cruzou seu caminho
A dó cortou o peito
Lhe deu um ninho
De gaiola era feito

Mas como não ser
Não voava o amarelinho
Preso pra viver
Mamãe lhe dava carinho

De repente o canto
Despertou nossos olhares
Tim Tim nunca em pranto
Foi feliz sem ares

Nada pode fazer
Se não chorar de saudade
Tim Tim não permanecer
Não podia ser verdade

Destino de passarinho
Não tem longa idade
Ficamos sozinhos
Sem sua eternidade

Rato também é bicho
Mas não causa encanto
Roeu com capricho
E Tim Tim era manso

Agora no coração
De mamãe fica o canto
Tim Tim amarelão

Que amou tanto


Kali para Mamãe

Thursday, 1 May 2008

Cria


Crescendo foi ganhando espaço
Pulou do meu braço
Nasceu outro dia e já quer ir pro chão
Já fala mãe, já fala pai
Já não suja na cama
Não quer mais chupeta
Já come feijão
E posso até ver os meus traços nos primeiros passos
Tropeça e seguro e não deixo cair
Se cai, levanta, continua
A porta da rua fechada
Criança não deixo sair
Da linha, da linha
Reflexo no espelho leva à emoção
A lágrima ameaça do olho cair
Semente fecundou
Já começa a existir
É cria, criatura e criador
Cuida de quem me cuidou
Pega na minha mão e guia

Serginho Meriti/Cesar Belieny

Sunday, 16 March 2008

Seja bem vindo




Rogério é cor de marfim, do tipo clássico selvagem. Tem voz média, risada gostosa e é peixe leão. Porte de homem rico, fértil e abastado. Gosta do que é bom porque tem bom gosto.
Conhece as cores primárias, e o que fazer para torná-las secundárias. Seleciona bem as palavras, boas e ruins. É homem de palavra.
Conta histórias como mulher, em detalhes usando mãos e sobrancelhas. Mãos lindas, dignas de beijar e os braços são soltos e feitos para abraçar. Abraçar-me.
Pele pintada do sol e o peito coberto de homem.
Rogério Branco é grande perto de homens comuns, grande nas conquistas e nos sonhos. Seus sonhos são sonhos de olhos abertos que inspiraram.
Tem amigos de toque, que tocam, que trocam e amam. Amam por anos e continuam o amando.
É preguiçoso feito um gato, embora seja nada traiçoeiro. Aliás Rogério não é nem malicioso, de felino só mesmo a preguiça e o charme.
Competição é sua história e presente trabalho. É famoso e campeão na sua vida e na vida de sua mãe. D. Rosa, flor que cresceu forte com caule de árvore, e com força abriu caminho para uma das razões de sua vida chegarem aqui.
“Aqui”, é meu coração, que nada tem de marfim, não é clássico nem selvagem. É cheio de espelhinhos de ego, tem inúmeros estilos, música alta e muita bagunça dançada. Meu coração precisa de paredes lisas e grossas. De broncas e força de elefantes para alargar as portas. Também quer Victor Ramiu com peixe cru e cerveja. Quer cheiro de incenso e suor circundado de parede de lona ou de céu.
Faltava eu te olhar assim meu honey, agora não me falta mais nada.


PS.: Na verdade falta aquele sofá, mas isso a gente dá jeito!


Karline Beber

Quando caí na real


Estou num dia daqueles, de cão. Prestes a cometer uma loucura. Como por exemplo entrar numa sala de aula que apresente umas duas carteiras fora do lugar, três bolinhas de papel no chão e mais uns quinze palitinhos de pirulito para fora das malditas bocas e fazer disso uma ligação direta com a corrupção, o aquecimento global e o terrorismo.
Entretanto, quando invado a sala cheia da razão e esvazio os pulmões para fazer daquilo um mundo melhor... empaco. Mula mesmo, me nego.
Como cobrar o que ainda não faz sentido algum para o universo deles? Naquele universo o mundo ainda tem jeito, a morte é papo de velho, as maiores preocupações são os bilhetes com desenhos debochados, eles perdem o sono por uma viagem de fim de semana, criam vocabulários próprios, roupas próprias, inventam de ser azul num dia e rosa pink com listrinhas noutro, amam e desamam os amores e desamores como woodstock.
Que espécie é essa que a gente esquece que foi?
Retomando meu dia de cão e minha metamorfose para mula, volto-me para a sala carimbada de coordenação, espero o sinal arrebentar as correntes dos pés dos palitos de pirulitos ambulantes e tenho uns vinte esperando para me dizerem:
- Saudades professora, boa viagem nestas férias.
Como podem ter a cara tão lavada? Como podem me rasgar o peso das malhas diárias, como conseguem me dobrar os joelhos e agradecer por ser a professora.
Quando foi que esqueci o que era ser um deles?

Karline Beber - Dia do Professor 2007

Deus tem de existir




Erro todos os dias os mesmos erros sem contar, sem somar, como se desaparecessem. Erro grave, desacerto por cegueira, tropeço nas próprias pernas e nem posso rir de mim mesma, porque a idiotice toma conta destes momentos e esqueço que tenho cabeça que arquiteta tudo. Decapitar por uns instantes e pagar o preço do remendo é uma das saídas.
Quero por vezes que a chance do segredo me seja concedida e que eu seja presenteada pelo esquecimento das bobagens. É possível sempre encontrar erros piores e me confortar, até que os menores se intrometem e me atormentam.
Que saco essa coisa do arrependimento.
Hoje, noite de ressaca e molhada, estranhamente ouço passarinhos na madrugada antecipando a manhã como se pudessem sentir que a noite estava me causando culpa.
Bobagem.
Há uma história pela frente. Quem conta?
Já começou a história, cheia de gaps. Vou retravar.
Posso corrigir erros mesmo publicados?
Quero uma continuidade mais grandiosa, mais bela, mais estudada e amada e eu como narradora personagem e observadora.
Na minha história prometo dar conta de ouvir os pássaros e acreditar que o nosso amor continua após a morte. Admito as dificuldades e através delas serei perdoada por tanto te amar. Vou diluir no amor minha culpa tímida para ficar livre dos castigos que eu mesmo aumento. Vou errar menos.


Karline Beber 22/09/2005

Monday, 3 March 2008

“O Caçador de Pipas” Khaled Hosseini


“Nós dois estávamos começando a viver a rotina – e as pequenas maravilhas – da vida de casados. Compartilhávamos escovas de dentes e meias, e trocávamos seções do jornal da manhã. Ela dormia do lado direito da cama; eu preferia o esquerdo. Ela comia os cereais secos, como se fossem salgadinhos; eu tinha praticamente que pescá-los no leite.
Naquele verão, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduação em Inglês. Arranjei um emprego de segurança no depósito de uma loja de móveis. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinhas uma vantagem considerável: depois que todo mundo ia embora e as sombras começavam a se espalhar por entre as fileiras de sofás cobertos de plásticos empilhados até o teto, eu pegava meus livros e ia estudar. Foi no escritório com cheiro de Pinho Sol daquele lugar que comecei a escrever o meu primeiro romance.
No ano seguinte Soraya também foi estudar na Jose State, e para a tristeza do pai, se matriculou na habilitação para o magistério.
- Não sei por que você fica desperdiçando os seus talentos desse jeito – disse o general, certa noite, durante o jantar. – Você sabia Amir jan, que ela só tirou conceito “A” durante todo o segundo grau? – Depois voltou-se novamente para ela. – Uma garota como você podia vir a ser advogada, cientista política. E, Inshallah, quando o Afeganistão for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova constituição. Vamos precisar de jovens afegãos talentosos como você. Podem até lhe oferecer um cargo de ministra, em função do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contraído.
- Não sou mais uma garota, padar. Sou mulher casada. E, além do mais, também vão precisar de bons professores.
- Mas ensinar é coisa que qualquer um pode fazer.
- Tem mais arroz, madar? – perguntou Soraya.
(...)
A fragilidade do general – e também o tempo – tinham abrandado as coisas entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoçar aos sábados, e às vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho terno cinza lustroso de tanto passar, com bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando, chegava até a tomar notas.
Naquela noite, Soraya e eu estávamos deitados, com as costas dela apertadas contra o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da época em que ficávamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos miúdos e dobrados, primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda fazíamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram por causa de uma vestido ridículo que tínhamos visto em uma festa. Continuava sendo bom quando fazíamos amor; às vezes até mais que bom. Algumas noites, porém, eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tínhamos acabado de fazer. Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo próprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.”

Thursday, 31 January 2008


Quadrado e redondo, cantos e centros. Assim eu enxergava o mundo. Mecânico e elétrico.

É mais fácil compreender física quântica nestes dias do que uma vida dentro de você.

É sobre este outro ser que é por estar em você, e só dessa maneira que pode vir as vias de fato da substância, que estou falando. Demasiado super-realismo. Imagine, podemos fazer alguém sem orçamentos e elementos, simplesmente ser para criar novo ser.

Incrível, fantástico, extraordinário não, porque é normal, é humano. Quebra-cabeças para bonitas paisagens, instruções de uso para eletrodomésticos, receitas, manual de carro, lego, regras do jogo, lista de compras, etiqueta, dicas para fazer amigos, dicionário. Entretanto, como construir, reformar, moldar ou comprar alguém não há. Trata-se de uma das fases do âmago, de todo bicho por aí. Reproduzir a espécie.

Incrível. Ainda abestalhada com o enjôo desta fase, embriagada de sensações primitivas e reveladoras vejo tudo misturado feito palavras na Bíblia ou Picasso, tato a barriga a procura de um tamanho feito Monte Fuji ou uma bola, temo por min ou por ele. Ele ou ela. Já quero, não quis, mas hoje quero tanto e me entrego a minha genética mais jovem pelo tempo que me fortuna. Desapego de vícios e erros banais para me tornar alguém melhor a exemplo daquele que precisa de mim, e até mesmo quando assim não precisar. Tudo em mim é este ser, tudo amor.

karline beber