Friday, 4 December 2009

ÀS MULHERES QUE CUIDAM


“Um milhão de vezes por dia eu procuro me lembrar que minha vida está baseada no trabalho de outros homens, e que eu devo me esforçar para ser capaz de dar na mesma medida em que recebi e ainda estou recebendo.”
Albert Einstein

Até bem pouco tempo, entre a barriga e meu bebê nos braços não sabia muito sobre doar. Doar completo, doar sem pestanejar.
Filhos ensinam mães dispostas a aprender, é claro.
Até bem pouco tempo, entre meu bebê nos braços e a volta ao trabalho não sabia muito sobre o trabalho dessas mulheres. Vocês, mulheres que escolheram a profissão mais feminina do mundo e aquela que permitiu que nós outras mulheres pudéssemos escolher várias outras profissões e mesmo assim sermos mães, e permitir que avós sejam avós e não avós mães.
Percebi, até bem pouco tempo, que vocês; digo vocês!; as professoras do Ensino Infantil do Cultura 2009, porque ainda não sei das demais neste mundo, são as que fizeram meu ano e do meu filho Isaac mais calmo, seguro e saudável.
A mulher que escolhe a pedagogia tem que ter a graça que vocês têm, o carinho impecável em cada “Olá” com voz de quem acordou de bem com a vida, mesmo que por alguns dias fosse preciso fingir. Todas demonstraram profissionalismo, em cada recado na agenda sobre pequenas conquistas, nos sorrisos quando atravessei o portão de entrada, o cuidado em saber logo nos primeiros dias o nome de meu filho, o disfarçar delicado nas despedidas com: Olha lá o cachorro Isaac! (Estela foi ótima), as anotações diárias infalíveis sobre alimentação e sono, a troca informal de experiências para Isaac dormir melhor, comer melhor, engatinhar corretamente e os registros entregues na metade do ano que então provaram o comprometimento com a profissão até mesmo como ciência.
Não sei se todas as mães se sentem assim satisfeita, embora acredito que a maioria sim, por saber que no primeiro ano de vida de seus filhos, as professoras deles fizeram parte de seu dia, um dia feliz.

Ninguém é satisfeito por completo, é humano ser insatisfeito, contudo, gostaria de afirmar que apesar de saber que nem sempre nosso trabalho é valorizado e nem sempre sabemos se é isso mesmo que queremos fazer para o resto da vida, me arrisco a dizer que vocês, Morgana, Cris, Fran, Bia, Estela, as cozinheiras, quem ajuda na higienização, as professoras da tarde, todas que por algum momento estiveram com meu filho, fazem o mundo melhor.

Cuidar da nossa espécie e educa-la com todos os princípios e valores que na simpatia de vocês eu senti segurança, faz com que, ao menos até aqui, estes bebezinhos tivessem o necessário para se tornarem boas pessoas.

Einstein, a pesar de sua genialidade focada, percebeu. E ele nem imaginava que em breve teríamos pedagogas, pessoas que estudam ciência do cuidar.

Thursday, 6 August 2009

Limão

Devem morar umas 16 famílias num edifício ao lado do edifício de minha mãe. Entre eles há um espaço grande com grama, playground e um limoeiro.
Um limoeirozão cheinho de limões. Foi o que eu vi. Um limoeirozão cheinho de limões maduros, alguns até caídos no chão. Cheinho!
Um limoeiro intocado. Como se tivesse crescido no meio de uma grande floresta bem longe. Quer dizer, os passarinhos sim, eles estavam ali de tempo em tempo bicando os restinhos de limões no chão. Embora não dessem conta de tantos limões.
Mas e aquela gente toda? As 16 famílias? Será que não gostam de limão, nem com peixe frito?
Um limoeirozão cheinho de limões ao lado do edifício de minha mãe. Ali, quase me pedindo para roubar alguns de tão cheinho, tão pesado, tão amarelo.
Será que essa gente não come limão nem com abacate e açúcar?
Ops! Um morador chega, passa pelo portão com sacolas e uma delas cheinha de limões, passa pelo limoeiro cheinho de limões e não vê, nem me vê. Vê nada, só a porta para entrar no edifício ao lado do edifício de minha mãe.
Se eu roubei alguns limões do limoeirozão cheinho de limões?
Não. Fui comprar também.

Sunday, 2 August 2009

O Berço


Têm peixinhos e uma tartaruga pequenina. Do outro lado do berço estão um cavalo marinho e algas, estrela do mar também. Faz lá fora uns 14 graus hoje e chove muito. Está tão úmido que as paredes deste apartamento trocam de cor e tudo que é papel fica molenga. Neste caso o papel higiênico é o único que tem vantagens. Fico fofinho.
Coisas do cotidiano.
Lá ele adormeceu. No berço o sono da tarde. Desde o quinto mês de vida não quer mais saber de deixar o sono sem meu colo e seio. Mostra o quanto é exigente. Embora no sono mais pesado ele se aninha entre os muitos cobertores e travesseiros e fica protegido com mosquiteiro, luz média e eu sempre alerta.
Ele dorme e eu zelo por seu sono, apoiada na grade do berço cantarolando you are my sunshine e canções do dvd dos Backyardgans (rodado umas cem vezes). Perfeita cena.
Encosto a porta para o plim plim do microondas não acorda-lo. Água quente e café, dobro algumas roupas e tiro do caminho medalhas do papai, livretos despedaçados, bolinhas, cds e dvds espalhados pelo chão, fraldas trocadas para o lixo e por último: pacotes de macarrão, arroz, sopinhas e açúcar para volta no armário. Escolhos umas peças para lavar quando então ele desperta num choro desbravado, como se gritasse meu nome num deserto de almofadinhas azuis dentro do berço. Tão aconchegante e ao mesmo tempo entediante.
Quando acorda quer por toda lei o colo, o peito. Marca território e então sim está pronto para botar tudo fora do lugar. Novamente. Perfeita cena.
Coisas do cotidiano.

Saturday, 17 January 2009

um pouco de coisas ordinárias


O normal e aceito como óbvio é mais interessante do que mostra um dia banal ou acontecimentos comuns, por exemplo: o filho que rola para ficar de bruços pela primeira vez. Trata-se de um extraordinário acontecimento, se assim nos dermos o prazer de enxergar a complexidade desse feito.
Ele agora me acompanha com o olhar, sabe encontrar o caminho do leite, conhece meu cheiro e sente-Se acolhido só de ouvir-me.
Percebe as mãos e corresponde aos sorrisos alheios, porém prefere as feições cotidianas formando desde já a esfera que O protege. Está certo de suas origens, considera-se indivíduo, membro, parte e todo, porque já se mostra feliz. Feliz como poucos nesse mundo de sorte. Ele agora é a ponta do triangulo que unirá por todos os tempos os nomes de pai e mãe.
Corresponde aos estímulos como um perfeito ser humano. Reage as diferentes texturas, aos sons e as formas que estão ao seu alcance. A cada instante aprende, assimila, absorve, arrebata e domina seu mundinho fora da barriga.
Dorme, sono brando, terno, durante toda a lua. Desperta com o sol e a fome, e então, somente eu, só eu, O sacio. É realizador, maravilhosamente inocente e indefeso. Imagine o valor do alimento para o filho, que nem sempre é o níveo leite, simplesmente a calidez do amor.
Ele agora me ouve atento, queixa-se da ausência dos alguémS, mãe, pai, avó, madrinha. Alguém que O ama. Tão pequenino e já sabe que amor é feito de reações e que felicidade não tem sentido se não compartilhada.
Ele é o entendimento do amor.
Amor sem circunstância, pleno e absoluto.
Isaac, filho do riso. Meu. Do mundo.

Sunday, 16 November 2008

Eu, barriga, marido e mãe

São sete horas da manhã. Pausa para acordar e regressar ao banheiro. A vontade é tanta que em instantes já estou pronta para dormir novamente. Só não despenco no sono ainda em pé porque o barrigão requer cuidados no aconchegar da cama. E como de costume dessas noites com barriga, me aproximo lentamente do pai para sanar o breve abandono e tomar meu espaço.O ritual do banheiro alcançou uma freqüência recorde. Me pergunto se não é uma espécie de ensaio para quando ele nascer e ditar as novas regras do sono.
Ainda na cama, marido se aproxima mais um pouco e toca com as costas de uma das mãos no barrigão, e num gesto minúsculo com os dedos acaricia o filho me enchendo de satisfação.
São nove horas agora, e no meio do trajeto para as necessidades básicas toca o telefone celular.
Estou de licença maternidade, mas faz bem ao ego vez e outra atender o trabalho para ser útil aos que me rodeavam. Ainda bem que os seres humanos reconhecem que a preservação da espécie jamais sobreviveria sem a licença maternidade. Nos primeiros dias estranhei o tempo passar sem relógio, mas quando a azia da gravidez e a pressão na bexiga iniciavam seus ciclos, apreciava cada minuto de sossego.
Hoje é um dos dias da licença que não arriscarei nada na cozinha. Venho me dedicando a ela quando posso. Não sou muito criativa, embora seja esforçada, segundo meu maridinho.
Morar junto era um sonho antigo, quase que uma obsessão. Contudo, venho percebendo que tratava-se de um impulso instintivo, ou seja, todos queremos ser dono do canto, do seu canto e quando somos, nos sentimos realizados.
Confesso que não enxergava o ninho de minha mãe com todas as suas palhas. Hoje aprecio cada palhinha, todos os arregos de mãe, de casa de mãe, sabe?! Roupa lavada, geladeira cheia com coisinha que gostamos, cheirinho de mãe no ar... E falando em mãe, ela trouxe morangos ontem a noite e eu os misturei com creme de leite porque sei que o marido gosta. Ofereci café para minha mãe, porque também sei que ela aprecia. Agradamos quem amamos. Nescafé é fácil de fazer. Durante a gravidez quase não bebi café, me enjoa o aroma.
Lá estávamos nós duas. Meu bebê na barriga e minha mãe a frente. Naquele momento senti falta de quando eu estava na barriga dela, saudades de um tempo que nem me lembro, embora eu sinta o cordão que me liga a ela eternamente.
Desde que a gravidez oscila meus hormônios e me provoca choro e riso, algo mudou. Estou enorme. Gigantemente mãe, como a minha, para sempre. Jamais tive tanto medo de encarar as fases da vida que estão por vir. Quero ficar velhinha para acompanhar a vida de meu filho. A velhice faz mais sentido agora, parece ser mais prazerosa. Ver crescer a satisfação da felicidade de um filho.
Almoçamos fora; eu, marido e o barrigão, é claro; num restaurante a quilo aqui perto. Estamos contando os dias para o nascimento de Isaac, apesar de já ter nascido há tempos dentro de nós. Já existe. Todos os nossos planos o incluem. Ele tem quarto com objetos que já são dele. Roupas com o nome gravado. Isaac já nasceu na história de todos que me conhecem.
Retornamos do almoço, o marido pegou o violão, eu me deitei com preguiça e sem culpa. Ele tocou I wish you were here, muito concentrado e eu lia Garcia Márquez, Viver para Contar. As olimpíadas na televisão, nestes poucos canais que pegam por aqui no apartamento que estamos. Marido se concentra impecavelmente nas notícias que envolve os esportes e eu o admiro por isso. Admiro homens com paixões. Ele conversa comigo mais um pouco, repousa toda atenção na minha barriga como faz todos antes de se despedir.
A porta se fecha, leio mais 30 páginas e durmo com Isaac aos soluços no meu ventre.
Desperto, escrevo sobre este dia simples, embora não comum. Agora são sete da noite, abre-se a porta, fico radiante em revê-lo.

Wednesday, 13 August 2008


Tô com o Rei na Barriga
Sentado feito um
Rei da minha Roma
Dono das minhas terras
Apertado no meu ventre
8 cm de fêmur
Pressiona minha bexiga
Cabeceia meu coração
Toma espaço
Mais espaço
Rei do meu tempo
Determina meu sono
Dá fome
Dá alegria
Dá medo
Rei
Bem vindo
Isaac meu filho

Tuesday, 5 August 2008


Ana Laura irradia
É morena branca
No céu estrela seria
Na terra eu sei que canta

Antonio é desenho
Artista quem o esculpiu
Requer algum empenho
No seu mundo riu

Irmãos juntinhos
No meio um pingüim
Parece geladinho
Mas é amor eterno enfim