Sunday, 16 March 2008

Seja bem vindo




Rogério é cor de marfim, do tipo clássico selvagem. Tem voz média, risada gostosa e é peixe leão. Porte de homem rico, fértil e abastado. Gosta do que é bom porque tem bom gosto.
Conhece as cores primárias, e o que fazer para torná-las secundárias. Seleciona bem as palavras, boas e ruins. É homem de palavra.
Conta histórias como mulher, em detalhes usando mãos e sobrancelhas. Mãos lindas, dignas de beijar e os braços são soltos e feitos para abraçar. Abraçar-me.
Pele pintada do sol e o peito coberto de homem.
Rogério Branco é grande perto de homens comuns, grande nas conquistas e nos sonhos. Seus sonhos são sonhos de olhos abertos que inspiraram.
Tem amigos de toque, que tocam, que trocam e amam. Amam por anos e continuam o amando.
É preguiçoso feito um gato, embora seja nada traiçoeiro. Aliás Rogério não é nem malicioso, de felino só mesmo a preguiça e o charme.
Competição é sua história e presente trabalho. É famoso e campeão na sua vida e na vida de sua mãe. D. Rosa, flor que cresceu forte com caule de árvore, e com força abriu caminho para uma das razões de sua vida chegarem aqui.
“Aqui”, é meu coração, que nada tem de marfim, não é clássico nem selvagem. É cheio de espelhinhos de ego, tem inúmeros estilos, música alta e muita bagunça dançada. Meu coração precisa de paredes lisas e grossas. De broncas e força de elefantes para alargar as portas. Também quer Victor Ramiu com peixe cru e cerveja. Quer cheiro de incenso e suor circundado de parede de lona ou de céu.
Faltava eu te olhar assim meu honey, agora não me falta mais nada.


PS.: Na verdade falta aquele sofá, mas isso a gente dá jeito!


Karline Beber

Quando caí na real


Estou num dia daqueles, de cão. Prestes a cometer uma loucura. Como por exemplo entrar numa sala de aula que apresente umas duas carteiras fora do lugar, três bolinhas de papel no chão e mais uns quinze palitinhos de pirulito para fora das malditas bocas e fazer disso uma ligação direta com a corrupção, o aquecimento global e o terrorismo.
Entretanto, quando invado a sala cheia da razão e esvazio os pulmões para fazer daquilo um mundo melhor... empaco. Mula mesmo, me nego.
Como cobrar o que ainda não faz sentido algum para o universo deles? Naquele universo o mundo ainda tem jeito, a morte é papo de velho, as maiores preocupações são os bilhetes com desenhos debochados, eles perdem o sono por uma viagem de fim de semana, criam vocabulários próprios, roupas próprias, inventam de ser azul num dia e rosa pink com listrinhas noutro, amam e desamam os amores e desamores como woodstock.
Que espécie é essa que a gente esquece que foi?
Retomando meu dia de cão e minha metamorfose para mula, volto-me para a sala carimbada de coordenação, espero o sinal arrebentar as correntes dos pés dos palitos de pirulitos ambulantes e tenho uns vinte esperando para me dizerem:
- Saudades professora, boa viagem nestas férias.
Como podem ter a cara tão lavada? Como podem me rasgar o peso das malhas diárias, como conseguem me dobrar os joelhos e agradecer por ser a professora.
Quando foi que esqueci o que era ser um deles?

Karline Beber - Dia do Professor 2007

Deus tem de existir




Erro todos os dias os mesmos erros sem contar, sem somar, como se desaparecessem. Erro grave, desacerto por cegueira, tropeço nas próprias pernas e nem posso rir de mim mesma, porque a idiotice toma conta destes momentos e esqueço que tenho cabeça que arquiteta tudo. Decapitar por uns instantes e pagar o preço do remendo é uma das saídas.
Quero por vezes que a chance do segredo me seja concedida e que eu seja presenteada pelo esquecimento das bobagens. É possível sempre encontrar erros piores e me confortar, até que os menores se intrometem e me atormentam.
Que saco essa coisa do arrependimento.
Hoje, noite de ressaca e molhada, estranhamente ouço passarinhos na madrugada antecipando a manhã como se pudessem sentir que a noite estava me causando culpa.
Bobagem.
Há uma história pela frente. Quem conta?
Já começou a história, cheia de gaps. Vou retravar.
Posso corrigir erros mesmo publicados?
Quero uma continuidade mais grandiosa, mais bela, mais estudada e amada e eu como narradora personagem e observadora.
Na minha história prometo dar conta de ouvir os pássaros e acreditar que o nosso amor continua após a morte. Admito as dificuldades e através delas serei perdoada por tanto te amar. Vou diluir no amor minha culpa tímida para ficar livre dos castigos que eu mesmo aumento. Vou errar menos.


Karline Beber 22/09/2005

Monday, 3 March 2008

“O Caçador de Pipas” Khaled Hosseini


“Nós dois estávamos começando a viver a rotina – e as pequenas maravilhas – da vida de casados. Compartilhávamos escovas de dentes e meias, e trocávamos seções do jornal da manhã. Ela dormia do lado direito da cama; eu preferia o esquerdo. Ela comia os cereais secos, como se fossem salgadinhos; eu tinha praticamente que pescá-los no leite.
Naquele verão, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduação em Inglês. Arranjei um emprego de segurança no depósito de uma loja de móveis. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinhas uma vantagem considerável: depois que todo mundo ia embora e as sombras começavam a se espalhar por entre as fileiras de sofás cobertos de plásticos empilhados até o teto, eu pegava meus livros e ia estudar. Foi no escritório com cheiro de Pinho Sol daquele lugar que comecei a escrever o meu primeiro romance.
No ano seguinte Soraya também foi estudar na Jose State, e para a tristeza do pai, se matriculou na habilitação para o magistério.
- Não sei por que você fica desperdiçando os seus talentos desse jeito – disse o general, certa noite, durante o jantar. – Você sabia Amir jan, que ela só tirou conceito “A” durante todo o segundo grau? – Depois voltou-se novamente para ela. – Uma garota como você podia vir a ser advogada, cientista política. E, Inshallah, quando o Afeganistão for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova constituição. Vamos precisar de jovens afegãos talentosos como você. Podem até lhe oferecer um cargo de ministra, em função do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contraído.
- Não sou mais uma garota, padar. Sou mulher casada. E, além do mais, também vão precisar de bons professores.
- Mas ensinar é coisa que qualquer um pode fazer.
- Tem mais arroz, madar? – perguntou Soraya.
(...)
A fragilidade do general – e também o tempo – tinham abrandado as coisas entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoçar aos sábados, e às vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho terno cinza lustroso de tanto passar, com bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando, chegava até a tomar notas.
Naquela noite, Soraya e eu estávamos deitados, com as costas dela apertadas contra o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da época em que ficávamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos miúdos e dobrados, primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda fazíamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram por causa de uma vestido ridículo que tínhamos visto em uma festa. Continuava sendo bom quando fazíamos amor; às vezes até mais que bom. Algumas noites, porém, eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tínhamos acabado de fazer. Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo próprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.”