
“Nós dois estávamos começando a viver a rotina – e as pequenas maravilhas – da vida de casados. Compartilhávamos escovas de dentes e meias, e trocávamos seções do jornal da manhã. Ela dormia do lado direito da cama; eu preferia o esquerdo. Ela comia os cereais secos, como se fossem salgadinhos; eu tinha praticamente que pescá-los no leite.
Naquele verão, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduação em Inglês. Arranjei um emprego de segurança no depósito de uma loja de móveis. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinhas uma vantagem considerável: depois que todo mundo ia embora e as sombras começavam a se espalhar por entre as fileiras de sofás cobertos de plásticos empilhados até o teto, eu pegava meus livros e ia estudar. Foi no escritório com cheiro de Pinho Sol daquele lugar que comecei a escrever o meu primeiro romance.
No ano seguinte Soraya também foi estudar na Jose State, e para a tristeza do pai, se matriculou na habilitação para o magistério.
- Não sei por que você fica desperdiçando os seus talentos desse jeito – disse o general, certa noite, durante o jantar. – Você sabia Amir jan, que ela só tirou conceito “A” durante todo o segundo grau? – Depois voltou-se novamente para ela. – Uma garota como você podia vir a ser advogada, cientista política. E, Inshallah, quando o Afeganistão for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova constituição. Vamos precisar de jovens afegãos talentosos como você. Podem até lhe oferecer um cargo de ministra, em função do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contraído.
- Não sou mais uma garota, padar. Sou mulher casada. E, além do mais, também vão precisar de bons professores.
- Mas ensinar é coisa que qualquer um pode fazer.
- Tem mais arroz, madar? – perguntou Soraya.
(...)
A fragilidade do general – e também o tempo – tinham abrandado as coisas entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoçar aos sábados, e às vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho terno cinza lustroso de tanto passar, com bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando, chegava até a tomar notas.
Naquela noite, Soraya e eu estávamos deitados, com as costas dela apertadas contra o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da época em que ficávamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos miúdos e dobrados, primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda fazíamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram por causa de uma vestido ridículo que tínhamos visto em uma festa. Continuava sendo bom quando fazíamos amor; às vezes até mais que bom. Algumas noites, porém, eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tínhamos acabado de fazer. Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo próprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.”
Naquele verão, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduação em Inglês. Arranjei um emprego de segurança no depósito de uma loja de móveis. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinhas uma vantagem considerável: depois que todo mundo ia embora e as sombras começavam a se espalhar por entre as fileiras de sofás cobertos de plásticos empilhados até o teto, eu pegava meus livros e ia estudar. Foi no escritório com cheiro de Pinho Sol daquele lugar que comecei a escrever o meu primeiro romance.
No ano seguinte Soraya também foi estudar na Jose State, e para a tristeza do pai, se matriculou na habilitação para o magistério.
- Não sei por que você fica desperdiçando os seus talentos desse jeito – disse o general, certa noite, durante o jantar. – Você sabia Amir jan, que ela só tirou conceito “A” durante todo o segundo grau? – Depois voltou-se novamente para ela. – Uma garota como você podia vir a ser advogada, cientista política. E, Inshallah, quando o Afeganistão for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova constituição. Vamos precisar de jovens afegãos talentosos como você. Podem até lhe oferecer um cargo de ministra, em função do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contraído.
- Não sou mais uma garota, padar. Sou mulher casada. E, além do mais, também vão precisar de bons professores.
- Mas ensinar é coisa que qualquer um pode fazer.
- Tem mais arroz, madar? – perguntou Soraya.
(...)
A fragilidade do general – e também o tempo – tinham abrandado as coisas entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoçar aos sábados, e às vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho terno cinza lustroso de tanto passar, com bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando, chegava até a tomar notas.
Naquela noite, Soraya e eu estávamos deitados, com as costas dela apertadas contra o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da época em que ficávamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos miúdos e dobrados, primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda fazíamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram por causa de uma vestido ridículo que tínhamos visto em uma festa. Continuava sendo bom quando fazíamos amor; às vezes até mais que bom. Algumas noites, porém, eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tínhamos acabado de fazer. Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo próprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.”

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