Monday, 3 March 2008

“O Caçador de Pipas” Khaled Hosseini


“Nós dois estávamos começando a viver a rotina – e as pequenas maravilhas – da vida de casados. Compartilhávamos escovas de dentes e meias, e trocávamos seções do jornal da manhã. Ela dormia do lado direito da cama; eu preferia o esquerdo. Ela comia os cereais secos, como se fossem salgadinhos; eu tinha praticamente que pescá-los no leite.
Naquele verão, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduação em Inglês. Arranjei um emprego de segurança no depósito de uma loja de móveis. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinhas uma vantagem considerável: depois que todo mundo ia embora e as sombras começavam a se espalhar por entre as fileiras de sofás cobertos de plásticos empilhados até o teto, eu pegava meus livros e ia estudar. Foi no escritório com cheiro de Pinho Sol daquele lugar que comecei a escrever o meu primeiro romance.
No ano seguinte Soraya também foi estudar na Jose State, e para a tristeza do pai, se matriculou na habilitação para o magistério.
- Não sei por que você fica desperdiçando os seus talentos desse jeito – disse o general, certa noite, durante o jantar. – Você sabia Amir jan, que ela só tirou conceito “A” durante todo o segundo grau? – Depois voltou-se novamente para ela. – Uma garota como você podia vir a ser advogada, cientista política. E, Inshallah, quando o Afeganistão for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova constituição. Vamos precisar de jovens afegãos talentosos como você. Podem até lhe oferecer um cargo de ministra, em função do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contraído.
- Não sou mais uma garota, padar. Sou mulher casada. E, além do mais, também vão precisar de bons professores.
- Mas ensinar é coisa que qualquer um pode fazer.
- Tem mais arroz, madar? – perguntou Soraya.
(...)
A fragilidade do general – e também o tempo – tinham abrandado as coisas entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoçar aos sábados, e às vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho terno cinza lustroso de tanto passar, com bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando, chegava até a tomar notas.
Naquela noite, Soraya e eu estávamos deitados, com as costas dela apertadas contra o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da época em que ficávamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos miúdos e dobrados, primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda fazíamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram por causa de uma vestido ridículo que tínhamos visto em uma festa. Continuava sendo bom quando fazíamos amor; às vezes até mais que bom. Algumas noites, porém, eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tínhamos acabado de fazer. Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo próprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.”

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