- Teu sobrenome tem cara de ser europeu, mas não é italiano, é?
Meu sobrenome para começo de história não tem cara de nada, tem é uma origem que anda tão longe e há muito tempo passou do hemisfério norte para o sul.
Mania que as pessoas têm de se apegarem aos sobrenomes. No grego a palavra mania é coisa de gente doida, então para não perder a mania falarei sobre sobrenomes, nomes sobre outros, e outros sobre nomes.
Meu nome já foi peça chave em várias conversas. Vem aquele e pergunta:
- Tu, filha dele? Conheço teu pai, tuas tias e até teu avô. Conheço toda tua família.
Logo imagina que me conhece também.
Coisa da genética, filho de peixe peixinho é, e quando não é, é porque passou por uma metamorfose e virou mamífero, ou seja, ovelha desgarrada, ou até mesmo acaba virando planta, fruta, aquela que cai longe do pé.
Embora referências familiares tenham seus méritos, suas vantagens, temos dificuldade de enxergar as influências e notar o que é original de cada um.
Alemão é tudo grosso! Os suecos todos lindos e a cozinha inglesa não serve nem para a família real. Rótulos, rótulos para tudo. Acho que criamos rótulos para fazermos de conta que sabemos mais sobre o mundo, conhecemos tanta gente e tantos lugares que podemos generalizar, rotular, pra então dizer na mesa de bar:
- Perfume só Francês, vinho pode ser Chileno, mas o Francês continua ainda o melhor.
Em uma dessas noites qualquer, que de tão qualquer são as melhores, eu e minha amiga do tempo das barbies sem acessórios mirabolantes, escolhemos um Filme Americano que se passava no México. Compramos um Vinho Uruguaio e pedimos Comida Chinesa. Com todo esse cenário globalizado percebi que a origem em forma de sobrenome que todos carregamos, já não fazia mais tanto sentido. Coisas e pessoas têm origem, mas será que a origem perdura como na genética?
Acho que não.
Lembrei que o aparelho de DVD onde assistimos o Filme Americano que se passava no México, e que acabei descobrindo que também possuía no elenco até brasileiros (orgulho!), era um Sansung. Aquela marca japonesa, que no entanto foi comprado no Paraguai com direito a selo de original e tudo mais.
Eu também tenho selo de original, diziam meus avós, cada um puxando pro o seu lado, italiano e alemão, só concordavam que ao menos eram europeus. Contudo, nunca entendi porque não voltaram, só nasceram lá, mas a impressão que dava era que nunca tivessem partido.
Eu me filiei ao Círculo Trentino, ouvi dizer que podemos ganhar dupla cidadania. Já pensou, serei de origem Italiana além de original do Brasil. Isso chega a me confundir um pouco. Original parece ser uma palavra positiva, de garbo, então porque não tentar ser original de dois lugares.
Original, segundo a maioria dos dicionários, é relativo a origem, primitivo, natural, que é feito sem modelos.
Ora, se é feito sem modelos, como eu hei de ser original? Tenho agora mais de uma origem, como o aparelho de DVD, que veio de um lugar com selo de outro.
Concluo que coisas e pessoas podem ser originais por terem várias origens, ou por não terem. Isso prova que origem e original são palavras sinônimas e antônimas.
Pra ficar mais claro é só pensar na moda que vem de Nova York ou de Milão, entretanto são fabricadas na China. E para qualquer brasileiro entender bem essa questão, basta refletir sobre o futebol que nasceu na Europa, mas faz jus ao nome na América Latina, sem contar com a Argentina, é claro! - caso contrário eu não soaria uma “Brasileira Original.”
(Karline S. Beber - 2000)